Prezado Sr.(a),

 

Todos sabemos que o “bom” é o inimigo do “ótimo”, e por isso mesmo não podemos perder a perspectiva quando comparamos o governo Bolsonaro com o que tivemos na última década. Nossa triste realidade reflete um legado quase que indescritível em todas as áreas, e o “novo normal” bolsonariano parece que veio para ficar, mas sem perder de vista o que de fato o fez presidente do Brasil.

A liberdade de expressão, duramente conquistada, é a representação maior do Estado Democrático de Direito, mas não devemos confundi-la com libertinagem de comunicação. Mais do que isso, não é somente o que se fala, mas também como se fala e, no caso do presidente, traduz, influencia e altera o curso do pensamento de todo o governo – estabelece o tom. Não se trata de tolher as ideias e manifestações do presidente, não. Contudo, seus comentários mais polêmicos já estão prejudicando e tem poder de gerar instabilidades importantes nos campos político, econômico e financeiro.

Pior é que muitas das instigações e cutucadas, em regra fora de contexto, desmedidas e absolutamente desnecessárias, neste momento pós-eleição e de governo efetivo, mais do que demonstra imaturidade e desleixo, esta retórica tem efeito duplamente contrário: tira energia e foco, e oferece palanque para a oposição. Não podia ser pior, sobretudo no momento em que nada pode dar errado nos rumos de realinhamento do país. Ainda que absurda a sugestão, o presidente precisa pautar e refletir mais sobre suas declarações e opiniões. Controlar a língua. Pedir desculpas por um erro ou um mau dito é um ato nobre, mas somente terá significado efetivo se o comportamento de fato mudar. Coragem não está no que se fala, mas no que se faz.

Corrigir esse comportamento parece urgente. Dados recentes mostram que o potencial de declarações polêmicas do presidente voltou a aumentar e, ainda que uma análise subjetiva, o arsenal palavrório tem impactos atômicos. Até recentemente, com o trio intacto (Paulo Guedes, Sergio Moro e Gen. Santos Cruz) parecia haver algum “freio” nas declarações presidenciais (cada qual auxiliando em sua seara), mas com o afastamento definitivo do General e dos demais por razões diversas, os que sobraram ao seu redor ou não têm “força” para influenciá-lo ou demovê-lo de declarações inoportunas, ou são na essência yes e/ou silent men.

Em verdade, como um vício, o presidente precisa de ajuda. Entretanto, o próprio presidente necessita dessa compreensão em primeiro lugar, caso contrário o auxílio não virá ou não terá efeito. Falar o que se pensa, mas não pensar no que se fala, mesmo que estejamos em um “novo normal” não parece ser uma boa atitude. O governo está cheio de bons técnicos e temos uma chance real de mudarmos os rumos de nossa história – precisamos focar nisso, especialmente nisso!

 

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